DNVT: O Terror!

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Por: Edy Lobo

O domingo, aos poucos despedia-se. A dor própria de um ser humano emocional e pouco racional apossava-se da estrutura completa humana buscando razões frívolas para não aceitar o verosímil de uma realidade bem visível. É a ordem normal dos factos; é mais fácil aceitar do que verborreiar de forma intranquila com o próprio ser. Aproximavam-se a segunda-feira e os seus (in)úteis irmãos.

Hora de fazer a planificação semanal. Quando mais novo não era necessário fazer uma lista de tarefas. A idade e as preocupações por si só começam a mostrar que por mais que queiramos permanecer “forever young” como cantaram os Alphavile, as vicissitudes da vida desenham a prova dos nove muito próxima da própria tabuada social.

Começo a traçar a minha vida fazendo uso do sangue de carvão negro do próprio lápis sobre um humilde pedaço de papel amarelo. Elabora-se uma lista de prioridades e suas hierarquias. Depois de uma análise minuciosa, a prioridade recai mesmo para a documentação do carro que há já quase 15 dias descubro que estava com a data fora de prazo para apresentar as autoridades na via caso seja parado por um agente de ordem pública.

Comecei a sentir o corpo febril e o sistema nervoso alterado. Apesar de ter alguns mosquitos a esvoaçar o meu território “dormital”, não acreditava que um deles num espaço de milésimos de segundos picaria-me com a sua flecha da paixão “paludismal” provocando-me calafrios. Eram mesmo as memoriais que estavam a fazer rewind naquele momento: ter de ir à Viação e Trânsito já deixou de ser a treva mas o próprio terror. É lá onde descobrimos que o tempo não é dinheiro. Sabe-se de antemão que uma manhã será perdida; mas não tem como não ser assim, pelo menos enquanto andarmos a busca da organização social de alguns serviços públicos e administrativos. Vou ter de ir mesmo a DNVT. Vou dormir consciente que amanhã “estou lixado”. Tentei ligar a fé mas esta, já vive um pouco opaca e as vezes é bom aceitar a realidade para não sofrer desnecessariamente.

Acordo comigo mesmo. Cumpro o itinerário doméstico obrigatório e bazo para lá: Talatona é a banda. A medida que o local se aproximava mais forte eram os batimentos cardíacos. Só lembro de ser assim quando estava a casar ou quando estou com desarranjos intestinais e avisto, não importa a distância, uma casa de banho.

Entro para o sítio e o palco com semelhanças religiosas estava montado: O agente a gritar os números das placas dos carros (matrículas) e as pessoas a responderem segundo o chamamento do “pastor agente”. Cumpri a bicha, fila, a ordem, para adquirir o recibo de solicitação dos serviços e uma vez lá à frente, o facto esperado:
“Isto está um pouco complicado; se quiseres o teu documento definitivo terás de esperar 3/4 horas”- assim disse-me o recepcionista no local e de forma muito educada. Não fiquei nervoso nem com ele nem com a notícia, pois eu já tinha, na noite anterior, feita a profilaxia no sistema nervoso.

Dirijo-me ao agente pastor. Entrego a minha ficha de ordem de chegada, o meu documento e começo as lamúrias:

Bom dia meu irmão; já tenho passado aqui desde 2016 e já não tenho mais paciência para passar por cá. Isto não se faz. Queira por favor colocar um carimbo de 1 ano neste documento, atestando a incompetência dos vossos serviços?

Queria muito dizer assim a última parte mas estava a falar com um agente e para não acabar mal fiquei pelo pedido do carimbo de um ano. Pelo que ele, depois de ouvir-me atentamente, disse-me:
Está bem senhor: vou lhe ajudar. Mas terá de esperar umas boas horas.
Olhei para ele bem nos olhos e obrigatoriamente concordando, agradeci.

“ Vou lhe ajudar”. Vais “me ajudar”? Como assim? Não é teu trabalho? Assim os que estão aqui ficam como? Não serão ajudados?
Retirei-me monologando de forma muito agressiva, vociferando pelas entranhas, maldizendo tudo e todos, só que ninguém me ouvia mas dava-se conta pela forma como eu pisava o chão onde passava. Tive mbora minha “fezada”. Foram com a minha cara e vão ajudar-me.
Só tenho de lamentar pelos outros. A vida não é assim: AQUI ESTÁ ASSIM.

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