Cúmplices de uma meia República – Edy Lobo

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Tudo começou com o verbo “arrestar” que arrastou-se até ao presente momento e continua até a arrastar vidas que, de inócuas, pouco ou nada tinham enquanto possuidores de decisões administrativas em prol de um bem comum. A via “stress” Isabel dos Santos, que nada tem a ver com a via expressa Fidel de Castro, ainda tem muitos contornos apertados que precisam ser desafogados do caminho para facilitar a passagem dos transeuntes que hoje rejubilam com algum garbo algumas decisões que são tomadas pelos órgãos de justiça desta meia república que somos todos cúmplices. Em tom meio que jocoso mas erudito quero refrescar algumas mentes sobre alguns conceitos pertinentes para se perceber sobre o que se está a passar.

Uma República (do latim res pública, “coisa pública”) é uma estrutura política de Estado ou forma de governo em que, segundo Cícero são necessárias três condições fundamentais para caracterizá-la: um número razoável de pessoas (multitude); uma comunidade de interesses e de fins (communio); e um consenso do direito (consensus iuris). Nasce das três forças reunidas: libertas do povo, auctoritas do senado e potestas dos magistrados. A República é vista, mais recentemente, como uma forma de governo na qual o chefe do Estado é eleito pelo povo ou seus representantes, tendo a sua chefia uma duração limitada. A eleição do chefe de Estado, por regra chamado presidente da república, é normalmente realizada através do voto livre e secreto.

De acordo a explicação supra e pelo que se tem visto na nossa “República” um vocábulo foi muito bem interiorizado: interesses; relegando para plano do fundo o fundamental: coisa pública. Uma república é feita com um número considerável de pessoas. Essas pessoas são participes indirectas nas tomadas de decisões em que o então chefe do estado toma em prol do bem público. Não foi o que se viveu durante muito tempo na nossa “Res Pública”.

Inúmeras decisões de governação foram tomadas para benefício de um pequeno grupo de pessoas partidárias sob o olhar sereno e tranquilo da maioria. Acredito que o mais sensato seria mudar também o termo de “República” para “Res privada” ou então meia república, porque de público mesmo, a nossa, só no papel.

Em todas as repúblicas há sempre um grupo insatisfeito que a cada decisão que é tomada em Assembleia do povo com um cariz “filantrópico” tem a pretensão de revogar mas suas vozes e pseudónimos são alterados e passam de cidadãos comuns para cidadãos Revús e por força de uma maioria alienada são vistas como pessoas non gratas. No meio de tudo isto, interesses egoístas foram destruindo um bem que poderia ser bom para todos.

Hoje temos um ensino e educação debilitados, uma saúde pública em coma por culpa de seres (des)humanos nacionais e a maioria dos cidadãos da república acompanharam impávidos e serenos. Hoje temos o país que temos por culpa própria. Somos cúmplices desta meia república.

Durante muito tempo nos mantivemos calados não muito por vontade própria também e há que se ter em conta isto. O sistema governativo não permitia concorrência verbal. Então muitos adoptaram a passagem de Ecclesiastes: “Há tempo para se falar e tempo para se calar”.

Com a “mudança” de governo desde 2017 nota-se que agora é tempo para falar. Foram dadas aberturas. Está na hora de alterar os paradigmas de governação. Está na hora de tornar a coisa PÚBLICA; para as pessoas, governar para as pessoas e não para os próprios umbigos. E isto só é possível com humildade e reconhecimento das asneiras cometidas num passado distante. A luta pela corrupção é bandeira de governação.

Hoje vários nomes que defraudaram o país vêm à tona em busca de alguma justiça mas sejamos sinceros: Se quisermos na verdade acabar com a corrupção em grande escala teríamos que reiniciar o país. Mas comecemos pelo topo. Quiçá os “cambomborinhos”, responsáveis de alguns cargos públicos abram os olhos e comecem a governar para o público mesmo e não para os seus familiares.

Ainda vai rolar muito pano para manga e devo admitir que é uma honra presenciar este capítulo de mudança governativa pouco dramática do meu país. Que a luta pela corrupção não seja apenas por interesses políticos e manutenção de poder mas para agradar a maioria que já há muito tempo tem estado a sofrer: o povo.

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