A arte de não fazer nada

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O que antes era visto como ócio ou marginalidade converte-se, assim, em engenhosidade urbana, desafiando as nossas ideias sobre trabalho, valor e sobrevivência.

A palavra “ócio” carrega uma reputação negativa. Costuma ser associada à preguiça, à inutilidade e ao atraso. No entanto, tal concepção é relativamente recente. Na Grécia Antiga, o ócio – scholé – correspondia ao tempo dedicado ao pensamento, à contemplação e à filosofia. Não se tratava do oposto do trabalho, mas da sua condição de possibilidade. Pensar exige tempo livre. Entre nós, esse significado ganhou uma nova representação linguística.

Não fazer absolutamente nada parece ser uma virtude. Ao longo dos anos, a cidade de Luanda tem testemunhado isso mesmo. Um novo estilo de vida: a arte de não fazer nada e, ainda assim, obter rendimentos. Esse fenómeno manifesta-se nos jovens que ocupam os espaços de estacionamento, nos lotadores de táxis, nos cambistas, entre angolanos e estrangeiros, no Mártires e, igualmente, nas proximidades de algumas repartições públicas, onde os intermediários interceptam os utentes antes mesmo de chegarem aos funcionários, passando a controlar as chamadas “soluções imediatas”.

Nas paragens, o aumento constante do número de lotadores revela mais do que um simples fenómeno urbano, uma lógica social em que a inactividade formal é, paradoxalmente, rentável. A ocupação de “não fazer nada” transformou-se em actividade marcada pelas disputas por passageiros e veículos, onde a habilidade de se posicionar rapidamente no espaço torna-se um capital valioso.

Por toda a cidade, observa-se a expansão dessa tendência, que transforma a ociosidade numa espécie de nova profissão. Aqui, o ócio converteu-se num privilégio raro. Em consequência, cresce entre uma parcela considerável da juventude a convicção de que é preferível viver do menor esforço possível e, ainda assim, acumular alguns trocados. À primeira oportunidade, o objectivo é claro: facturar, e facturar cada vez mais.

No centro urbano, muitos jovens, vivem nas ruas e nelas constroem modos de sobrevivência que desafiam a moral tradicional do trabalho. O espaço público, deixou de ser a via de passagem e converteu-se em arena social, onde se afirmam regras próprias e hierarquias implícitas.

Esse cenário incentiva outros a aderirem e revela uma transformação profunda. A concepção de trabalho e sucesso, antes associada ao esforço contínuo e à disciplina formal, dá lugar a uma lógica pragmática, em que a astúcia e a capacidade de ocupar o tempo e o espaço se tornam valores reconhecidos – e, por vezes, impostos.

O que antes era visto como ócio ou marginalidade converte-se, assim, em engenhosidade urbana, desafiando as nossas ideias sobre trabalho, valor e sobrevivência.

Por exemplo, em certas paragens da cidade, ao esperar um táxi, a bagagem não pode ser colocada no chão indiscriminadamente: ela tem dono. A cada dia surgem novos ofícios, moldados pela lógica da sobrevivência urbana. Vivemos na era do business. O esforço para trabalhar deixou de ser considerado uma virtude moral.

O ócio, paradoxalmente, transformou-se num distintivo de sucesso. Nesse cenário, facturar sem fazer quase nada é visto como sinal de esperteza e, não raras vezes, elevado à condição de estilo de vida.

Não se trata, aqui, de defender o ócio como profissão, mas de alertar para a sua manifestação enquanto forma de oportunismo ou fuga das responsabilidades. Muitos desses jovens poderiam ocupar espaços no campo, mas optam pela cidade. Isso nos leva a reconhecer que existe um tipo de “não fazer” capaz de produzir efeitos profundos, ainda que invisíveis.

 

Por: Norberto Carlos

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