O meu voto: (in)consciente ou solidariedade?

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Animado!
Sim. Foi assim que ergui-me dos confortáveis lençóis, na passada quarta-feira 23 de Agosto, nos meus aposentos chamado pela obrigação de decidir entre mais de 9 milhões de pessoas conscientes, a priori.
Senti-me como aquele tio que vai resolver problemas numa família, com a mente vestida ao rigor, sapatos da firmeza e o pensamento na certeza que a mudança, quer seja de rotura ou da continuidade mas jovial, será a melhor escolha. Fazia tudo num silêncio que até a mim mesmo incomodava, que já cheirava dúvida.
Por muitos dias ouvi vários programas eleitorais, promessas feitas de sal e açúcar, outras escritas na areia à beira mar e outras feitas com espuma. Eram coisas de deixar confuso apenas as pessoas que pela primeira vez estavam a ser chamados para decidir “um mambo rijo”.
Bem sério da minha vida, saí de casa e fui votar acreditando que o meu voto seria o do desempate e a consequente vitória do partido político que seria sortudo com o meu X no quadrado. Ahm… Esqueci de dizer: A minha gravata era da cor do optimismo.
Seguindo os parâmetros até começar a caminhada para a cabine de votação, comecei a transpirar. Não estava a perceber o que se passava. Comecei a tremer. Acreditei ser o peso de 1.246.700 toneladas sob as minhas costas. Senti pelos pobres, pelas zungueiras, pelos professores, pelos desempregados, pelos bairros sem luz não dignos de ligar uma geleira, pela falta de água nalgumas zonas… Senti muito.
Não pude ser egoísta e pensar apenas nos meus benefícios (poucos mas são), nos meus amigos que têm oportunidades de cometer falcatruas e viajarem, não pensei só naqueles que quando agarram uma “micha” gritam logo: o país está bom pah…”
Pensei geral. Fiz uma equação dos bens e dos males e caminhei tranquilo para a cabine. Peguei na esferográfica e minha respiração começou a ficar ofegante e as palmas das mãos húmidas. Do lado direito ouvia: “Pensa bem pah…” e do lado esquerdo ouvia ” Não se faz de maluco”. Comecei a tremer. Olhei para as fotos dos futuros “meus funcionários” (funcionários sim porque eles prometeram durante as campanhas trabalhar para o meu bem caso eu vote para eles), uma a uma, começando por cima. Quando começava a baixar para fazer o X a lapiseira escorrega e cai no quadrado número 2. ISEAZAR! Ali pensei: Estraguei um boletim. Vou pedir outro. Mas depois, indaguei-me: E se os boletins estiverem contados? Se pedir outro, alguém ficará, de certeza, sem votar por culpa da minha frivolidade e descuido também.
Recuei. Pensei nas promessas do número 2. Foram várias, desde o milhão de empregos, a viajar no estrangeiro cá dentro. Nada mal. Vou assumir o barulho e contribuir para o meio ambiente, porquê estragar um boletim é dar cabo de papel e não ter em conta o esforço dos outros. Fiz bem o X no quadrado do candidato número 2 e garanti que ele não estaria sozinho nessa. Caminhava para a urna de papéis sorridente na certeza que fui solidário para com um candidato. Na verdade a distribuição equitativa de votos começou por mim.
VIVA ANGOLA!
Edson Nuno a.k.a Edy Lobo
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