Trump reconhece Jerusalém como capital de Israel. E agora?

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Decisão de Washington quebra com a tradição diplomática das últimas décadas e promete ter consequências imprevisíveis.

Donald Trump anunciou esta quarta-feira que os Estados Unidos reconhecem oficialmente Jerusalém como capital de Israel. A decisão do presidente norte-americano contará com a aprovação do governo de Netanyahu mas promete ter impacto no já de si conturbado Médio Oriente.

Numa declaração a partir de Washington, Trump afirmou: “Não podemos resolver os problemas repetindo as mesmas estratégias do passado. O meu anúncio de hoje marca o início de uma abordagem diferente” ao conflito Israel/Palestina.

Trump acrescentou que é altura de os Estados Unidos “reconhecerem oficialmente Jerusalém como a capital de Israel”. De seguida, afirmando que está “comprometido com a paz” e apelando à “tolerância”, confirmou o que já havia sido noticiado: a embaixada dos Estados Unidos em Israel vai mudar de Telavive para Jerusalém.

“Claro que vai haver desacordo e dissidências relativamente a este anúncio, mas estamos confiantes, enquanto trabalhamos nesses desacordos, de que vamos chegar a um lugar de entendimento e cooperação”, afirmou Trump, que garante já ter falado com os líderes políticos e religiosos da região para que estes se juntem ao que presidente norte-americano considera “uma nova abordagem” ao longo conflito entre árabes e israelitas.

De há vários anos a esta parte que, de seis em seis meses, o presidente dos Estados Unidos tinha a responsabilidade de confirmar (ou não) se a embaixada se manteria em Telavive.

Os antecessores de Trump optaram por manter a mesma linha, procurando desta forma não tomar parte, do ponto de vista simbólico e mesmo diplomático, a favor de Israel. Nesse sentido, Trump acabou com as dúvidas e disse que era preciso “reconhecer o óbvio”, ou seja, “que Jerusalém é a capital de Israel”.

“Até agora recusámos reconhecer qualquer capital de Israel. Hoje, finalmente, reconhecemos o óbvio, que Jerusalém é a capital de Israel. Não é nada mais do que reconhecer a realidade. É também a coisa certa para fazer, que tem de ser feita”, reiterou o presidente norte-americano.

Ao longo de todo o discurso, Trump reforçou a ideia de que seu objetivo é alcançar a paz e em momento algum admitiu estar a tomar posição ao lado de Israel. “Queremos um grande acordo para os israelitas e um grande acordo para os palestinianos. Não estamos a tomar nenhuma posição final sobre o estatuto [de Jerusalém]ou sobre os limites específicos da soberania israelita em Jerusalém ou no resto das fronteiras contestadas”, rematou.

Esta quarta-feira, antes ainda do anúncio oficial da decisão, o presidente dos Estados Unidos já tinha dado a entender o sentido da sua decisão, ao sugerir que esta mudança já vinha tarde.

O simbolismo de uma decisão

A decisão norte-americana quebra com a tradição diplomática dos últimos anos e é um ato político com potenciais riscos do ponto de vista religioso. É também uma solução que segue numa linha contrária ao que parceiros dos Estados Unidos, como o Canadá e a própria União Europeia, têm defendido, na tentativa de salvaguardar o já de si frágil processo de paz na região.

No conflito Israel/Palestina, que dura há várias décadas, o estatuto de Jerusalém tem estado no centro do confronto.

Cidade sagrada para as três religiões monoteístas – para cristãos, muçulmanos e judeus -, tem sido palco de violência constante. É na cidade velha que se situa o Pátio das Mesquitas – terceiro lugar sagrado do Islão – ou Monte do Templo, para os judeus.

Na guerra de 1948, Jerusalém foi dividida em duas partes, Oeste e Leste, sob controlo de Israel e da Jordânia, respetivamente. Em junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou o lado Este, anexando-o, um ato que nunca foi reconhecido internacionalmente.

Esta decisão vem colocar em causa o processo de autoderminação palestiniana, assente na solução de dois estados – um palestiniano e um israelita –, a posição oficial assumida pela comunidade internacional. Os palestinianos ambicionam que neste futuro estado Jerusalém Leste seja a sua capital. Já os israelitas consideram Jerusalém como a sua capital “eterna e indivisível”.

A segurança em várias embaixadas norte-americanas no Médio Oriente foi reforçada, noticia a ABC News. Vários militares estão a patrulhar as proximidades. Na terça-feira, a embaixada norte-americana em Israel aconselhou os seus diplomatas e famílias a não andarem nas ruas da Cidada Velha.

Com esta decisão de Trump, adivinham-se protestos e cresce a apreensão sobre como será a reação do Hamas e do Hezbollah. Falta também saber qual será a reação oficial de algumas potências na região, nomeadamente de países como a Turquia, o Irão e a própria Arábia Saudita. Entretanto, a Liga Árabe convocou reunião de emergência, a China manifestou preocupação com o escalar da tensão e o próprio Papa Francisco apelou à “prudência”.

Emmanuel Macron, presidente francês, tinha feito esta semana um apelo a Washington para que não avançasse com esta mudança. Portugal, pelo seu lado, fez hoje saber que não acompanharia esta decisão de Washington, precisamente pelas dificuldades acrescidas que traria a um processo de paz na região.

Fonte:NAM

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